domingo, 29 de maio de 2016

Ser ou não ser... vivo: eis a questão dos vírus!


Pois é...

Mais uma vez, um estudo publicado reacende a polêmica dos vírus. São eles seres vivos ou não? Atualmente os critérios utilizados na maioria das discussões escolares sobre o tema gira em torno das características básicas que definem os seres vivos. Todos aqueles que já passaram pelo ensino médio em algum momento discutiram sobre elas: 

Presença de célula e material genético, metabolismo próprio, capacidade de reprodução, evolução, reação a estímulos do ambiente etc... 

O artigo publicado na Revista Science Advances, realizado pelo Professor Gustavo Caetano-Anollés, com a participação do estudante Arshan Nasir, ambos da Universidade de Illinois parece lançar um novo fato no histórico imbróglio. Até o hoje os vírus estão exilados na classificação taxonômica entre os reinos de seres vivos. São algo como os selvagens de Game Of Thrones, não pertencem às grandes casas de Westeros e estão do lado de fora da grande muralha...ou não! Eles até possuem uma classificação taxonômica baseada em diferentes ordens, famílias, gêneros e espécies de acordo com sua forma, estrutura, meios de "reprodução" e estrutura genética (você pode ver aqui essa descrição da taxonomia dos vírus). Mas essa classificação flutua no ar! Sem algo que a enraíze em um grande reino, tampouco sem grandes descobertas sobre as relações evolutivas existentes entre os diferentes vírus. Muito desse desconhecimento se relaciona ao fato de existirem muitos vírus. São apenas 4900 descritos pela ciência, mas se estima que existam mais de 1 milhão desses minúsculos seres aterrorizantes e enigmáticos! 

Pois bem, o grande argumento do novo estudo é significativo para dar um novo desenlace
Exemplo de dobras proteicas de alguns vírus.
para essa história de exílio dos vírus. Os pesquisadores usaram um grande conjuntos de estruturas proteicas chamadas de "dobras" que são encontradas e codificadas no genoma de todas as células e vírus. As dobras são blocos estruturais que fornecem às proteínas suas formas complexas, tridimensionais. Ao comparar as estruturas de dobra em diferentes ramos da árvore da vida, os pesquisadores conseguiram reconstruir as histórias evolutivas do código genético das dobras nos diferentes organismos.


Por quê as dobras?

Como sabemos, uma das características mais interessante dos vírus e que faz com que tenhamos que nos preocupar todos os anos com vacinas de gripe blá blá blá é sua gigantesca capacidade de mutação! O genoma dos vírus modifica-se continuamente durante seu processo de infecção, ao passar de uma célula a outra. Porém, as estrutura proteicas responsáveis pelas dobras são menos suscetíveis às mutações, pois são responsáveis pela estrutura proteica dos vírus, ou seja àquilo que lhes dá forma. Seu lindo "corpinho" viral. 

No trabalho, os pesquisadores analisaram todas as dobras conhecidas em 5.080 organismos representando todos os ramos da árvore da vida, incluindo 3.460 vírus. Usando métodos de bioinformática avançados, eles identificaram 442 dobras de proteínas que são compartilhados entre as células e os vírus, e 66 que são exclusivas para vírus. Isso significa que embora os vírus apresentem estruturas exclusivas, eles compartilham grande parte delas com as células de outros organismos. A análise revelou sequências genéticas de vírus que são diferentes de qualquer coisa vista em células. Isto contradiz uma hipótese de que os vírus capturem todo o seu material genético de células. Este e outros resultados também apoiam a ideia de que os vírus são "criadores de novidade", disse ele.

A estrutura das proteínas virais em diferentes vírus.
Os dados sugerem "que os vírus se originou a partir de múltiplas células antigas ... e co-existiam com os antepassados ​​das células modernas", disse Caetano-Anollés. Os dados também sugerem que em algum momento de sua história evolutiva, não muito tempo depois da vida celular moderna surgir, a maioria dos vírus ganhou a habilidade de encapsular-se em coberturas de proteína que protegiam suas cargas genéticas, permitindo-lhes passar parte do seu ciclo de vida fora das células hospedeiras e se espalhar, disse Caetano-Anollés. As dobras de proteínas que são únicas para vírus incluem aqueles que formam os capsídeos virais. "Estes capsídeos tornaram-se cada vez mais sofisticados com o tempo, permitindo que os vírus se tornassem infecciosos à células que já haviam se tornado resistentes a eles", disse Nasir. "Esta é a marca do parasitismo."


Ser... Ou não ser: parasita obrigatório

Alguns cientistas argumentam que os vírus não sejam vivos por não serem capazes de se "reproduzir" (replicar) fora das células hospedeiras, dependendo da maquinaria metabólica celular para a construção de suas proteínas virais. No entanto, muitas evidências apoiam a ideia de que os vírus não sejam tão diferentes de outros seres vivos, disse Caetano-Anollés.

"Muitos organismos necessitam de outros organismos para viver, incluindo bactérias que vivem no interior das células e fungos que se envolvem em relacionamentos parasitas obrigatórios - eles dependem de seus hospedeiros para completar seu ciclo de vida" todo mundo que já acompanhou algum dos diversos apocalipses zumbis sabe muito bem disso, disse ele. "E é isso que os vírus fazem."

Ser... Ou não ser: a eterna questão

Com base nas dobras proteicas o que se sugere é que os vírus realmente teriam grande relação evolutiva com as células, precisando, dessa forma, ser incluídos dentro da classificação taxonômica. Foi isso que os pesquisadores fizeram. Utilizando os dados de proteínas disponíveis em bases de dados online e a partir de métodos computacionais, Nasir e Caetano-Anollés construíram árvores de vida que incluem os vírus.

Isso resolve a questão? Acredito que não, pois a ciência continuamente está entrando em controvérsias e discussões que são fundamentais para que novas descobertas, mudanças e novos estudos aconteçam. Porém, uma coisa é fato: já é hora de os livros didáticos serem revistos ao apresentar os vírus para as novas gerações.






quarta-feira, 4 de maio de 2016

Celebração do corpo humano II

E quando o corpo humano vira, além de material artístico, um material de trabalho para a construção de objetos cotidianos, como por exemplo, mobília??

É isso que propõe o artista espanhol David Blazquez.


Em uma exposição em Sevilha, ele apresentou um ensaio fotográfico que explora uma ideia interessante: mobiliário humano.

Parece ser o limite ao pensar o corpo humano como material de trabalho. Até porque, nas obras, éo próprio artista que aparece, completamente nu. Seria alguma coisa como explorar o corpo como objeto e material de trabalho, longe de qualquer discussão que remeta o nu à algum tipo de moralismo.

É comum na atualidade científica, a relação do corpo humano com objetos tecnológicos, como próteses, mecanismos que incorporam artefatos maquínicos ao indivíduo. Nesse caso é o objeto artificial que vem ao humano. Já o contrário, não parece ser algo tão comum. Talvez seja por isso que as imagens chegam a causar certo desconforto. Pois mostram humanos desprovidos que humanidade (isso seria muito além do que "mortos").

É o corpo humano esquartejado em sua humanidade. Potencializado em sua objetificação.










quarta-feira, 13 de abril de 2016

DNA, Cromatina, Cromossomo, Gene

Muito bem pessoal quarta faseano,

Deixo aqui as definições duras (científicas), para esses conceitos. E algumas possibilidades de entendimento em algumas páginas avulsas.

1. DNA: é um composto orgânico, formado por duas longas cadeias dispostas como uma dupla hélice. cada cadeira apresenta uma sequência de nucleotídeos (1 fostafo + 1 açúcar - desoxirribose + base nitrogenada - pode ser (T)imina, (A)denina, (C)itosina e (G)uanina). Uma imagem  e um vídeo que demonstram essa ligação e podem ajudar a entender isso tridimensionalmente.

2. Cromatina: é o DNA compactado juntamente com uma série de proteínas chamadas histonas. O DNA ainda não está totalmente compactado, como nos cromossomos, mas também não está totalmente estendido. Pode ser visto nessa imagem e nesse vídeo (em espanhol, mas da pra entender o processo animado)

3. Cromossomo: estrutura formada pelo DNA completamente compactado pelas proteínas histonas e por um grande enovelamento. Os cromossomos só se condensam no momento em que a célula inicial o processo de divisão celular. Nos outros momentos, o DNA está distendido para poder se "lido" e transcrito. Nessa imagem se pode ver e nesse vídeo.

Nessa animação há uma apresentação bem bacana do cromossomo.

4. Gene: fragmento de DNA (Ou sequência de bases nitrogenadas, uma sequência longa, com milhares de bases) que codifica uma molécula de RNAm específico que é responsável pela formação de uma ou várias cadeias polipeptídicas ( proteínas). Aqui pode ser vista uma imagem e um vídeo (desde o início até os genes).

Gran finale: Vídeo resumo interessante e bem didático

É isso, se ficarem dúvidas, comentem, ou guardem para a próxima aula!

Até! =)






domingo, 29 de novembro de 2015

Celebração do corpo humano I

Pessoal,

Há algum tempo comecei uma série de postagens celebrando o corpo humano em suas mais diversas expressões. Acho interessante resgatar as publicações e produzir outras na mesma lógica, afinal, o corpo é nossa primeiro espaço de vivência e experiência do mundo. Então.... Vamos celebrá-lo! :)

Onde está a beleza do corpo humano? Cientificamente talvez esteja na sua plena e complexa precisão. 

De fato, a precisão de funcionamento do organismo humano - e de forma geral da vida -,  é digna das mais profunda admiração.

Mas não  é só a ciência que celebra a beleza do corpo humano não, gente. A arte também faz isso de maneira muito admirável.

Vou trazer alguns exemplos de arte que celebra o corpo humano. Para começar, uma série do fotógrafo francês Julien Palast.


Ele apresenta na série de fotografias "SkinDeep", uma celebração da geografia do corpo humano com suas curvas, desvios e depressões. São corpos que parecem querer fugir dessa membrana multicolorida que os aprisiona. Mas nessa tentativa frustrada de escapar, acabam deixando belíssimas marcas orgânicas de suas biológicas formas.

As cores vibrantes em technicolor, criam uma atmosfera ambígua de luz e sombra, evidenciando algumas partes, escondendo outras. E, além disso, fornecem movimento às imagens.

É a imagem do corpo celebrada em sua forma plena e bela, para além de imposições da moda e da saúde a todo custo.




















domingo, 8 de novembro de 2015

Vamos dançar?

É inevitável reconhecer que o ato de dançar não é uma exclusividade humana. O próprio dicionário Michaelis, no caso, define o ato de dançar como: "Sequência de movimentos estereotipados, mais ou menos rítmicos, executados habitualmente por um animal em resposta a um estímulo particular". Poderíamos pensar na dança como uma consagração do ritmo que nos une a todos, seres vivos. Ritmos que movimentam nossos fluídos, que criam enxurradas dentro de nossas células, que bombeiam nosso sangue, nos fazem respirar como também envelhecer.

É verdade quer há uma potência na dança. Nesse ato aparentemente banal de movimentar o corpo de um lado para o outro, movidos por uma intenção interna. A intenção que mobiliza essa potência pode ser reprodutiva, como no caso da grande maioria dos animais. (Dá uma espiada nas aves e escorpiões dos vídeos aí na sequência).


Várias cavalinhas. Os caules longos e retos
Porém, quando a intenção da dança não repousa na possibilidade da atração de um parceiro para a reprodução ela se transforma em arte. E aí, será que podemos pensar em outros seres vivos dançarinos que não sejam da espécie Homo sapiens? Se você acha que não, assista ao vídeo abaixo que mostra a inusitada dança dos esporos de uma planta, a Cavalinha. A cavalinha é uma planta que guarda em sua existência características muito interessantes. Ela pertence ao gênero Equisetum. Esse gênero é o único na família Equisetaceae, a qual, por sua vez, é a única família da ordem Equisetales e da classe Equisetopsida, que pertence à divisão Pteridophyta. O gênero Equisetum um grupo de exclusividades. Dentro dele estão diversas espécies que comumente são chamadas de Cavalinhas. São plantas bem diferentes. Segue o 3x4 da moça ao lado.

Detalhe das minúsculas folhas.
Possuem folhas muito reduzidas e um caule verde (fotossintético), oco e com diversas juntas e estrias. Apresentam estróbilos nas extremidades onde estão os esporos usados na sua reprodução. São plantas muito antigas, surgiram há aproximadamente 300 milhões de anos, o que as coloca como uma das primeiras plantas a habitar o planeta! Algumas das espécies podem crescer muito como a Equisetum giganteum chegando a cinco metros de altura! Além disso, a cavalinha tem muitas propriedades medicinais.

Por apresentar grande quantidade de minerais e silício em sua composição, é reconhecido seu potencial na recuperação de fraturas e cortes nos ossos, carne e cartilagem, como também pode melhorar o tempo de coagulação do sangue. O alto teor de sílica também fortalece os tecidos conjuntivos do corpo e beneficia pacientes no tratamento de artrite reumatóide. A cavalinha também pode ser uma considerável influência benéfica contra problemas brônquicos, reumatismo e gota. Inclusive a cavalinha (espécie Equisetum arvense) faz parte da Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS), constituída de espécies vegetais com potencial de avançar nas etapas da cadeia produtiva e de gerar produtos de interesse do Ministério da Saúde do Brasil.
Detalhe dos estróbilos contendo os esporos

Mas o que eu gostaria de enfatizar (além de todo esse floreio biológico interessante e também importante) é a capacidade artística da Cavalinha. Sim! Há poucos dias encontrei um vídeo que mostrava os esporos da cavalinha em uma bela e coreografada dança. Os esporos possuem longos prolongamentos que, em clima úmido, permanecem acoplados ao esporo. Porém, quando a umidade do ar diminui, essas "pernas" se esticam e promovem um belíssimo movimento que lembra uma partitura de dança contemporânea.



Como não perceber a assinatura artística nesse movimento fluído e intenso? Com certeza os esporos da cavalinha não dançam com a mesma intencionalidade que um animal na sua saga reprodutiva, ou como um ser humano em sua atitude estética, mas é, sem dúvida, uma bela dança que me leva a convidar? Vamos dançar?

Sugiro os vídeos abaixo pra encher o corpo de vontade, os músculos de sangue e o coração de ritmo. Que tal improvisar uma dança pelo simples prazer de... 

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Posted by 무용과 on Domingo, 26 de janeiro de 2014


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Posted by 무용과 on Segunda, 21 de outubro de 2013

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Dançar pela vida!!

Referências:

- Dicionário Michaelis
- Equisetum
- Cavalinha: benefícios e propriedades medicinais

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Os pandas são herbívoros???

Pessoal,

Como havia falado em aula, hoje deixo aqui um curta metragem "instigante" sobre os pandas.

Hã tempos os cientistas vêm se questionando e pesquisando sobre a dieta e vida do urso panda, que na verdade não é de fato um urso, pois pertence ao gênero Ailuropoda e não ao gênero Ursus. Ohhhh isso é incrível!! Não, na realidade isso é interessante e reflete somente um processo evolutivo

Mas enfim, esse interesse e perguntas indiscretas sobre o "urso" panda se proliferam entre os cientistas e leigos. Mas se ele é um urso, não deveria ser carnívoro? Por que então pertence à Ordem Carnivora? O que aconteceu em sua evolução para que passassem a se alimentar somente de bambu?  Por que eles não têm interesse em sua própria reprodução? Por que eles são tão fofinhos e lindos? Enfim...
A maioria desses questionamentos já apresenta uma resposta bem consistente, porém, o interesse em relação aos pandas continua em alta.

Há pouco foi publicada uma reportagem no jornal espanhol "El País" discutindo justamente sobre a dieta do panda e os problemas relacionados a ela. Vocês podem conferir aqui 

O fato é que além de toda discussão científica o interesse pelos pandas parece ter cruzado a fronteira da biologia e invadido o cinema. Vide o bonitinho Kung Fu Panda 1, 2, 3, 432,.... (Ufa!)

Mas existe outro filme mais ácido sobre os pandas. É uma animação Eslováquia e Tcheca que reflete toda essa discussão científica sobre sua dieta, sua sexualidade e avança em uma crítica à nossa relação com esses animais símbolo e como eles se tornam um produto rentável e acabam perdendo sua dimensão biológica. 

Deixo o link e a sugestão. Atenção: apresenta cenas "fortes"!

Panda
Direção: Matus Vizar. Animação. Anim. Eslováquia, República Tcheca
Sinopse: O mundo muda cada vez mais rápido, e os humanos ocupam cada vez mais espaço sem pensarem nas conseqüências. Os pandas se encontram no meio de um jogo, onde comércio e puro deleite voyeurístico são postos lado a lado com a necessidade de preservação.



domingo, 26 de abril de 2015

Aranhas mascaradas

É incrível como algumas vezes a natureza pode surpreender por seu compasso tão preciso com a cultura. Ou seria o contrário? Enfim...
Digo isso, pois há algum tempo eu descobri as pequenas aranhas do gênero Maratus e fiquei fascinado por elas. Vulgarmente chamadas de Peacocks spiders (aranhas-pavão), esse gênero de aranhas saltitantes foi descrito já há bastante tempo, em 1878 por Ferdinand Anton Franz Karsch, um entomologista e aracnologista alemão. Porém, somente na década de 1950 as primeiras espécies do gênero foram descritas de forma mais consistente por Dunn (1957). Todas elas presentes na Austrália.
O gênero Maratus apresenta aproximadamente 30 espécies de aranhas descritas até o momento. Elas são pequenas (machos têm entre 2 e 8 mm) e apresentam uma grande capacidade de saltar (estão na família Salticidae), mas com certeza essas não são as características mais fantásticas que elas apresentam. Se você tem pavor de aranhas, fique tranquilo! Talvez depois de conhecer as Peacock spiders você se cure definitivamente e isso por diversas razões.
 
 
Preparem-se! Aqui eu faço um grande parênteses e lanço um salto gigantesco como uma Peacock Spider para deixá-los ainda mais curiosos, para escrever um pouco sobre as máscaras! A relação entre o ser humano e as máscaras é muito longa. Existem exemplares de máscaras antropomórficas encontradas na região do Oriente Médio com mais de 9 mil anos! Com variados usos na história, as máscaras sempre trazem uma relação com a possibilidade de exercitar a imaginação e o simbolismo. De adentrar em um universo oculto e inacessível pela experiência cotidiana com o mundo e com os outros. Octávio Paz, poeta e intelectual mexicano, diz que “Enquanto estamos vivos, não podemos escapar de máscaras e nomes. Somos inseparáveis de nossas ficções – nossas feições”. O fato é que a pluralidade do uso das máscaras em diferentes épocas e em distintas sociedades remete ao caráter transformatório que elas evocam. Sejam elas usadas para rituais religiosos, mágicos, artísticos, lúdicos, etc...
Podemos dizer que praticamente todas as culturas humanas apresentam, em algum aspecto uma relação com o mascaramento. Porém, não vou me aprofundar nessa questão muito interessante por sinal, mas somente enfatizar um pouco sobre as máscaras rituais utilizadas por alguns grupos étnicos na Oceania.
 
Para diversas sociedades nativas, a violência da natureza e as doenças súbitas, por exemplo, são as forças que precisam ser apaziguadas e elas se misturam nas mentes nativas com ideias sobrenaturais. O céu e deus, a chuva e divindades são diferentes aspectos da mesma coisa. Para apaziguar esses deuses é que são realizados rituais são realizados. Ou seja, as cerimônias são um aspecto essencial de suas vidas. Uma saída espetacular para emoções intensas. Nas cerimônias, as máscaras são apetrechos fundamentais e estes objetos refletem a preocupação dos nativos com o dramático. Eles infundem em um objeto atemorizante seu próprio sentimento de terror e sua inadequação em face das forças naturais. É uma aparição quimérica tornada real por meio da arte.
Abaixo segue uma relação imagética de diversas máscaras rituais de diferentes grupos étnicos Polinésios, além de um vídeo mostrando um ritual que utiliza as máscaras.
 
Máscara Tatanua. Nova Irlanda. Madeira, casca, cal e fibras.
Essa máscara era usada em cerimônias funerais chamadas de Malagan.
Para as pessoas Abelam, muitos aspectos da vida giram em torno do cultivo de inhames, cerimônias e festivais associados. As máscaras são parte integrante desses eventos. Esta máscara tumbuan era parte de um traje completa de dança e provavelmente foi usada em um festival de inhame quando coletada durante uma expedição do Museu Australiano em 1964 no  Rio Sepik. Bastão de junco e pigmentos naturais.

Enquanto alguns tipos de máscara eram sagrados, outros, como essa máscara eharo, foram criados principalmente para diversão. Para o povo Elema, os eharo eram "MAEA morava eharu" ("coisas de alegria"), e se dançavam como um prelúdio para rituais mais sagrados. Eharo representam seres sobrenaturais, bem como figuras humorísticas. Material:casca deárvore,  junco revestido e pintado. Metropolitan Museum of Art. 1972.

Esta máscara de dança foi usado por um jovem durante uma cerimônia de iniciação de adultos (kaiva kuku). Tais máscaras foram geralmente queimado após a cerimônia.
Máscara de forma cónica; branca. 1913. Cabeça antropomórfica com olhos proeminentes e boca aberta; parte detrás da cabeça decorada com um círculo vermelho. dois braços salientes nos lados, dobrados nos cotovelos, com as mãos de cinco dedos. Museu Australiano.

Representantes dos Elema utilizando asmáscaras Hevehe e caminhando em direção à casa Eravo. Essa casa era usada somente pelos hmens para discussões políticas e rituais. Baia Orokolo, Papua Nova Guiné.
 
Dança do Fogo no Festival de Máscaras em Rabaul, Papua Nova Guiné.
 
Maratus madelineae macho. Foto de Jürgen C. Otto.
Finalmente agora podemos voltar às aranhas Ufffff, quase esqueci delas nessa viagem toda com máscaras e aranhas? Para tentar relacionar as coisas. Outra característica interessantíssima das aranhas do gênero Maratus, é a morfologia do abdômen (opistossoma) no corpo dos machos. Em quase todas as espécies, os machos apresentam um abdômen extremamente colorido e com padrões de coloração muito intensos. Essas cores são o resultado de escamas iridescentes que refletem a luz (tanto a visível, quanto a luz ultravioleta) e se relacionam com o comportamento de corte realizado pelos machos.
 
 
 
Close na carona da Maratus jactatus evidenciando seus vários
olhinhos e seus palpos peludos. Foto: Jürgen C. Otto.
Outra questão muito interessante é que em nenhuma espécie o padrão de cores dessas escamas se repete. É um padrão único e extremamente sofisticado de cada uma dessas espécies. Em alguns casos são padrões impressionantes! Em um artigo de março de 2015, Jürgen C. Otto, grande entomologista responsável por dar visibilidade às Peacock Spiders, descreve, por exemplo, a Maratus elephans. Uma espécie recém-descoberta e descrita do gênero Maratus. Mas e esse nome... Maratus elephans? Não lembra elefante? Pois então... Nós não estávamos falando de aranhas? Sim.... Estou confuso!
Háááá, não se preocupe. Realmente Maratus elephans refere-se a elefante, como sugere Jürgen em seu artigo:
 
 

O nome específico do grupo (elephans, Latim, a partir do ἐλέφας grego antigo, substantivo em aposição ao nome do gênero, Tradução Português elefante) refere-se à semelhança entre o padrão sobre a lâmina superior do opistossoma de machos adultos desta espécie e a cabeça de um elefante visto de frente.
Olha só o retrato dela:
 
Maratus elephans macho em comportamento de corte. Opistossoma e terceiro par de patas erguidos. Possível visualizar os palpos e alguns de seus olhos de elefante, quer dizer, aranha. Foto: Jürgen C. Otto.
 
Pois bem, no momento em que encontram as fêmeas, os machos levantam seu opistossoma e seu terceiro par de patas e iniciam um comportamento de corte muito interessante com movimentos repetitivos e muito intensos. Em algumas espécies os movimentos são laterais. Em outras envolve giros completos de 360º ao redor do próprio corpo. Existem outras que movimentam também horizontalmente o terceiro par de patas enquanto movem o corpo e o opistossoma. Enfim, é uma grande coreografia extremamente sofisticada com o único e exclusivo objetivo de reproduzir-se. Passar seus genes para a geração seguinte e perpetuar a espécie.
É aqui! Exatamente nesse espaço-tempo que as duas histórias se cruzam: as Peacock Spiders encontram as máscaras! Mas como? Por quê? Onde?
Mais um háááá! Uma das 30 espécies de Peacock, a Maratus speciosus, apresenta uma característica muito interessante. Assim como as outras espécies, seu opistossoma também exibe um padrão único e com escamas iridescentes, porém, seu padrão de coloração assemelha-se muito a uma máscara humana.  Uma máscara antropomórfica. Exatamente como as máscaras usadas nas tradicionais cerimônias e rituais Polinésios.
 
Maratus speciosus. A verdadeira aranha mascarada em ritual de corte. Acaso?
 
No belíssimo vídeo abaixo vocês podem ver a Maratus speciosus em sua dança ritualística típica. A aranha polinésia, mascarada e que traduz em seu corpo os hábitos culturais de diversos grupos étnicos humanos desde há muitos séculos, ou até mesmo milênios.
 

Aqui a biologia encontra a cultura. Encontro inevitável que muitas vezes deixamos passar desapercebido e que se reflete em tudo. Nossas tradições culturais e a diversidade étnica que nos constitui é, continuamente, atravessada pela natureza em suas mais diversas expressões. Aprender a enxergar essa relação é algo que promove uma reconexão necessária com o que em nós é animalidade e persiste e, sempre persistirá.

Referências:

Flickr de Jürgen C. Otto com milhares de fotos das Peacock Spiders: https://www.flickr.com/photos/59431731@N05/

Página do facebook sobre as Peacock Spiders:
https://www.facebook.com/PeacockSpider?ref=ts&fref=ts

Natali Anderson, 2015. Two New Species of Peacock Spiders Discovered in Austrália

OTTO, J; HILL, D. An illustrated review of the known peacock spiders of the genus  Maratus from Australia, with description of a new specie. Peckhamia 96.1, 2011.

OTTO, J; HILL, D. Notes on Maratus Karsch 1878 and related jumping spiders from Australia, with five new species (Araneae: Salticidae: Euophryinae). Peckhamia 103.1, 2012.

OTTO, J; HILL, D. Maratus elephans, a new member of the volans group from New South Wales. Peckhamia 123.1, 2015.

DUNN, R. A.  1957.The Peacock Spider.  Walkabout, 1957.

Sketchs of Maratus

Maratus

Australian Museum: Natural Culture Discover

KAEPPLER, A. Ceremonialmasks: a melanesian art style. JPS, 1963.

The Flourishing os Island Cultures: The Art of Oceania