domingo, 29 de maio de 2016

Ser ou não ser... vivo: eis a questão dos vírus!


Pois é...

Mais uma vez, um estudo publicado reacende a polêmica dos vírus. São eles seres vivos ou não? Atualmente os critérios utilizados na maioria das discussões escolares sobre o tema gira em torno das características básicas que definem os seres vivos. Todos aqueles que já passaram pelo ensino médio em algum momento discutiram sobre elas: 

Presença de célula e material genético, metabolismo próprio, capacidade de reprodução, evolução, reação a estímulos do ambiente etc... 

O artigo publicado na Revista Science Advances, realizado pelo Professor Gustavo Caetano-Anollés, com a participação do estudante Arshan Nasir, ambos da Universidade de Illinois parece lançar um novo fato no histórico imbróglio. Até o hoje os vírus estão exilados na classificação taxonômica entre os reinos de seres vivos. São algo como os selvagens de Game Of Thrones, não pertencem às grandes casas de Westeros e estão do lado de fora da grande muralha...ou não! Eles até possuem uma classificação taxonômica baseada em diferentes ordens, famílias, gêneros e espécies de acordo com sua forma, estrutura, meios de "reprodução" e estrutura genética (você pode ver aqui essa descrição da taxonomia dos vírus). Mas essa classificação flutua no ar! Sem algo que a enraíze em um grande reino, tampouco sem grandes descobertas sobre as relações evolutivas existentes entre os diferentes vírus. Muito desse desconhecimento se relaciona ao fato de existirem muitos vírus. São apenas 4900 descritos pela ciência, mas se estima que existam mais de 1 milhão desses minúsculos seres aterrorizantes e enigmáticos! 

Pois bem, o grande argumento do novo estudo é significativo para dar um novo desenlace
Exemplo de dobras proteicas de alguns vírus.
para essa história de exílio dos vírus. Os pesquisadores usaram um grande conjuntos de estruturas proteicas chamadas de "dobras" que são encontradas e codificadas no genoma de todas as células e vírus. As dobras são blocos estruturais que fornecem às proteínas suas formas complexas, tridimensionais. Ao comparar as estruturas de dobra em diferentes ramos da árvore da vida, os pesquisadores conseguiram reconstruir as histórias evolutivas do código genético das dobras nos diferentes organismos.


Por quê as dobras?

Como sabemos, uma das características mais interessante dos vírus e que faz com que tenhamos que nos preocupar todos os anos com vacinas de gripe blá blá blá é sua gigantesca capacidade de mutação! O genoma dos vírus modifica-se continuamente durante seu processo de infecção, ao passar de uma célula a outra. Porém, as estrutura proteicas responsáveis pelas dobras são menos suscetíveis às mutações, pois são responsáveis pela estrutura proteica dos vírus, ou seja àquilo que lhes dá forma. Seu lindo "corpinho" viral. 

No trabalho, os pesquisadores analisaram todas as dobras conhecidas em 5.080 organismos representando todos os ramos da árvore da vida, incluindo 3.460 vírus. Usando métodos de bioinformática avançados, eles identificaram 442 dobras de proteínas que são compartilhados entre as células e os vírus, e 66 que são exclusivas para vírus. Isso significa que embora os vírus apresentem estruturas exclusivas, eles compartilham grande parte delas com as células de outros organismos. A análise revelou sequências genéticas de vírus que são diferentes de qualquer coisa vista em células. Isto contradiz uma hipótese de que os vírus capturem todo o seu material genético de células. Este e outros resultados também apoiam a ideia de que os vírus são "criadores de novidade", disse ele.

A estrutura das proteínas virais em diferentes vírus.
Os dados sugerem "que os vírus se originou a partir de múltiplas células antigas ... e co-existiam com os antepassados ​​das células modernas", disse Caetano-Anollés. Os dados também sugerem que em algum momento de sua história evolutiva, não muito tempo depois da vida celular moderna surgir, a maioria dos vírus ganhou a habilidade de encapsular-se em coberturas de proteína que protegiam suas cargas genéticas, permitindo-lhes passar parte do seu ciclo de vida fora das células hospedeiras e se espalhar, disse Caetano-Anollés. As dobras de proteínas que são únicas para vírus incluem aqueles que formam os capsídeos virais. "Estes capsídeos tornaram-se cada vez mais sofisticados com o tempo, permitindo que os vírus se tornassem infecciosos à células que já haviam se tornado resistentes a eles", disse Nasir. "Esta é a marca do parasitismo."


Ser... Ou não ser: parasita obrigatório

Alguns cientistas argumentam que os vírus não sejam vivos por não serem capazes de se "reproduzir" (replicar) fora das células hospedeiras, dependendo da maquinaria metabólica celular para a construção de suas proteínas virais. No entanto, muitas evidências apoiam a ideia de que os vírus não sejam tão diferentes de outros seres vivos, disse Caetano-Anollés.

"Muitos organismos necessitam de outros organismos para viver, incluindo bactérias que vivem no interior das células e fungos que se envolvem em relacionamentos parasitas obrigatórios - eles dependem de seus hospedeiros para completar seu ciclo de vida" todo mundo que já acompanhou algum dos diversos apocalipses zumbis sabe muito bem disso, disse ele. "E é isso que os vírus fazem."

Ser... Ou não ser: a eterna questão

Com base nas dobras proteicas o que se sugere é que os vírus realmente teriam grande relação evolutiva com as células, precisando, dessa forma, ser incluídos dentro da classificação taxonômica. Foi isso que os pesquisadores fizeram. Utilizando os dados de proteínas disponíveis em bases de dados online e a partir de métodos computacionais, Nasir e Caetano-Anollés construíram árvores de vida que incluem os vírus.

Isso resolve a questão? Acredito que não, pois a ciência continuamente está entrando em controvérsias e discussões que são fundamentais para que novas descobertas, mudanças e novos estudos aconteçam. Porém, uma coisa é fato: já é hora de os livros didáticos serem revistos ao apresentar os vírus para as novas gerações.






quarta-feira, 4 de maio de 2016

Celebração do corpo humano II

E quando o corpo humano vira, além de material artístico, um material de trabalho para a construção de objetos cotidianos, como por exemplo, mobília??

É isso que propõe o artista espanhol David Blazquez.


Em uma exposição em Sevilha, ele apresentou um ensaio fotográfico que explora uma ideia interessante: mobiliário humano.

Parece ser o limite ao pensar o corpo humano como material de trabalho. Até porque, nas obras, éo próprio artista que aparece, completamente nu. Seria alguma coisa como explorar o corpo como objeto e material de trabalho, longe de qualquer discussão que remeta o nu à algum tipo de moralismo.

É comum na atualidade científica, a relação do corpo humano com objetos tecnológicos, como próteses, mecanismos que incorporam artefatos maquínicos ao indivíduo. Nesse caso é o objeto artificial que vem ao humano. Já o contrário, não parece ser algo tão comum. Talvez seja por isso que as imagens chegam a causar certo desconforto. Pois mostram humanos desprovidos que humanidade (isso seria muito além do que "mortos").

É o corpo humano esquartejado em sua humanidade. Potencializado em sua objetificação.